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Quando a linguagem afasta

Foto do escritor: Ronan Sevlac
Ronan Sevlac
1 de jul.
5 min de leitura
Audiodescrição da imagem: Imagem horizontal, em estilo aquarela, com tons suaves de bege, verde, azul, terracota e amarelo, mostrando um ambiente acolhedor e cheio de plantas, onde um grupo diverso de pessoas está reunido ao redor de uma mesa para conversar sobre comunicação clara. No alto, ao centro, aparece o título em letras grandes azul-escuras: “Quando a linguagem afasta”; abaixo dele há um pequeno ornamento com folhas e coração e a frase “Clareza também é inclusão.” À esquerda da imagem, aparecem papéis e balões com textos formais e difíceis, como “considerando”, “conforme disposto”, “procedimento” e “prazo”, representando uma linguagem burocrática que pode confundir ou afastar as pessoas. À direita, há cartões mais simples e organizados, com expressões como “O que fazer”, “Prazo”, “Seu direito”, “Como pedir ajuda” e “Passo a passo”, indicando uma comunicação mais acessível. Na parte inferior, várias pessoas de diferentes idades, aparências e origens estão sentadas à mesa: uma pessoa jovem observa com atenção, uma mulher usando hijab sorri, um homem negro mais velho, de barba grisalha e óculos, participa da conversa, uma mulher de blusa amarela segura um documento dividido entre “como está” e “como pode ser”, uma mulher idosa de cabelos brancos escuta sorrindo e um homem de óculos em cadeira de rodas participa com um caderno aberto à sua frente. Sobre a mesa há canecas, cadernos, celular, lápis, uma planta pequena e uma pilha de livros com as palavras “escuta”, “clareza” e “acesso”. A imagem transmite a ideia de que a linguagem pode criar barreiras, mas também pode abrir caminhos quando é feita com clareza, cuidado e inclusão.
Audiodescrição da imagem: Imagem horizontal, em estilo aquarela, com tons suaves de bege, verde, azul, terracota e amarelo, mostrando um ambiente acolhedor e cheio de plantas, onde um grupo diverso de pessoas está reunido ao redor de uma mesa para conversar sobre comunicação clara. No alto, ao centro, aparece o título em letras grandes azul-escuras: “Quando a linguagem afasta”; abaixo dele há um pequeno ornamento com folhas e coração e a frase “Clareza também é inclusão.” À esquerda da imagem, aparecem papéis e balões com textos formais e difíceis, como “considerando”, “conforme disposto”, “procedimento” e “prazo”, representando uma linguagem burocrática que pode confundir ou afastar as pessoas. À direita, há cartões mais simples e organizados, com expressões como “O que fazer”, “Prazo”, “Seu direito”, “Como pedir ajuda” e “Passo a passo”, indicando uma comunicação mais acessível. Na parte inferior, várias pessoas de diferentes idades, aparências e origens estão sentadas à mesa: uma pessoa jovem observa com atenção, uma mulher usando hijab sorri, um homem negro mais velho, de barba grisalha e óculos, participa da conversa, uma mulher de blusa amarela segura um documento dividido entre “como está” e “como pode ser”, uma mulher idosa de cabelos brancos escuta sorrindo e um homem de óculos em cadeira de rodas participa com um caderno aberto à sua frente. Sobre a mesa há canecas, cadernos, celular, lápis, uma planta pequena e uma pilha de livros com as palavras “escuta”, “clareza” e “acesso”. A imagem transmite a ideia de que a linguagem pode criar barreiras, mas também pode abrir caminhos quando é feita com clareza, cuidado e inclusão.

A gente costuma pensar que um texto difícil é sinal de inteligência.


Frases longas, palavras complicadas, siglas, termos técnicos, expressões jurídicas, conceitos acadêmicos e parágrafos enormes muitas vezes passam uma impressão de autoridade. Parece que, quanto mais difícil for entender, mais importante o conteúdo se torna.


Mas será que precisa ser assim?


Em muitos casos, a linguagem difícil não aproxima. Ela afasta.


Afasta quem não teve acesso a determinados estudos. Afasta quem está cansada ou cansado depois de um dia de trabalho. Afasta quem precisa resolver um problema com urgência. Afasta quem tem deficiência, quem tem baixa escolaridade, quem está aprendendo português, quem tem dificuldade de leitura ou simplesmente quem não tem tempo para decifrar um texto como se fosse um enigma.


E quando a linguagem afasta, a informação deixa de cumprir uma de suas funções mais importantes, que é chegar às pessoas.


Entender não deveria ser privilégio


Quantas vezes alguém recebe um documento, uma orientação, um comunicado ou uma notícia e precisa perguntar: “mas o que isso quer dizer?”


Isso acontece no serviço público, nas empresas, nas escolas, nas universidades, nos hospitais, nos bancos, nos contratos, nos aplicativos e até nas mensagens mais simples do dia a dia.


Às vezes, a pessoa não deixa de agir porque não quer. Ela deixa de agir porque não entendeu.


Não entendeu o prazo. Não entendeu o direito. Não entendeu a obrigação. Não entendeu o risco. Não entendeu o caminho.


E aí a responsabilidade costuma cair sobre quem não compreendeu, como se o problema fosse falta de atenção, falta de interesse ou falta de capacidade.


Mas nem sempre é isso.


Muitas vezes, o problema está em quem comunica.


Linguagem simples não é linguagem pobre


Existe uma confusão comum: achar que escrever de forma simples é escrever de forma rasa.


Não é.


Linguagem simples não significa infantilizar o assunto. Não significa tirar a seriedade do tema. Não significa abandonar termos técnicos quando eles são necessários.


Significa explicar melhor.


Significa organizar as ideias. Escolher palavras mais diretas. Diminuir rodeios. Separar informações importantes. Dizer primeiro o que a pessoa precisa saber. Evitar que a forma do texto vire uma barreira.


Um assunto pode ser complexo e, ainda assim, ser explicado com clareza.


Aliás, talvez esse seja um dos maiores desafios, tratar temas importantes sem transformar a linguagem em muro.


A forma também comunica


Quando um comunicado começa com muitas considerações, citações legais, expressões formais e frases que parecem não terminar nunca, ele está comunicando mais do que a informação escrita.


Ele também comunica distância.


Comunica que aquele texto foi feito para cumprir uma formalidade, não necessariamente para ser entendido. Comunica que existe uma hierarquia entre quem escreve e quem lê. Comunica que a pessoa destinatária precisa se adaptar à linguagem da instituição, e não o contrário.


Isso não quer dizer que todo texto deva ser informal.


Há situações em que a formalidade é necessária. Um processo administrativo, uma norma, um parecer, uma decisão ou um documento oficial têm exigências próprias.


Mas formalidade não precisa ser sinônimo de confusão.


É possível ser respeitoso e claro. É possível ser técnico e compreensível. É possível ser institucional sem ser inacessível.


Comunicação também é inclusão


Quando falamos de acessibilidade, muitas pessoas pensam logo em rampas, elevadores, Libras, legendas, audiodescrição ou tecnologias assistivas. Tudo isso é importante.


Mas a linguagem também pode ser uma barreira.


Um texto confuso pode impedir que alguém exerça um direito. Uma informação mal organizada pode impedir que uma pessoa participe de uma reunião, faça uma inscrição, peça ajuda, apresente uma denúncia, solicite um serviço ou compreenda uma decisão que afeta sua vida.


Por isso, linguagem simples também é uma forma de inclusão.


Ela não resolve tudo, mas ajuda a abrir caminhos.


E abrir caminhos importa.


Quem escreve precisa se perguntar


Antes de publicar, enviar ou divulgar uma informação, algumas perguntas simples podem ajudar.


Quem precisa entender este texto? O que essa pessoa precisa fazer depois de ler? A informação principal está clara logo no início? Existe alguma palavra que poderia ser substituída por outra mais comum? As frases estão longas demais? O texto ajuda ou dificulta a vida de quem lê?


Essas perguntas parecem pequenas, mas mudam muita coisa.


Porque, no fundo, comunicar bem não é apenas dizer algo. É se responsabilizar para que aquilo possa ser compreendido.


Clareza é cuidado


Escrever com clareza dá trabalho.


Às vezes, dá mais trabalho do que escrever difícil. Porque exige escolha, revisão, empatia e atenção a quem vai ler.


Mas esse esforço faz diferença.


Faz diferença para quem precisa acessar um direito. Para quem precisa cumprir um prazo. Para quem precisa entender uma orientação. Para quem está em situação de vulnerabilidade. Para quem não pode perder tempo tentando adivinhar o que uma mensagem quis dizer.


A linguagem pode acolher ou afastar. Pode abrir portas ou criar obstáculos. Pode convidar para a conversa ou deixar muita gente do lado de fora.


Por isso, antes de perguntar se um texto está bonito, talvez a gente precise perguntar,

ele está compreensível?


Porque informação que ninguém entende não aproxima, não orienta e não transforma.


Antes da opinião, primeiro, o contexto.

 
 
 

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